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Entre Sonhos e Escolhas: Educação, Propósito e a Arte de Servir

15 de jul. de 2023
10 min de leitura

Atualizado: 13 de out.

Os sonhos, por vezes, brincam com a nossa mente e transcendem as fronteiras da realidade. Diferentemente do corpo, que encontra limites na matéria e no tempo, a mente parece ter a liberdade de se expandir e se retrair ao sabor dos pensamentos, das lembranças e das esperanças. Sonhar é, de certa maneira, manter viva a possibilidade de recomeçar, mesmo quando a vida nos conduz por caminhos que jamais imaginamos percorrer.


Talvez seja justamente nos recomeços que aprendemos a reconhecer o essencial. A espiritualidade de Francisco de Assis nos convida a olhar a existência com humildade, a acolher nossas fragilidades e a descobrir que a grandeza humana não está em acumular conquistas, mas na maneira como nos colocamos a serviço da vida e dos outros. Essa compreensão também encontra lugar na educação, onde cada gesto de atenção, cada palavra de incentivo e cada oportunidade de ensinar podem representar uma pequena semente de transformação.


Em 2017, decidi, finalmente, retornar à escola, depois de passar longos vinte anos exercendo outras atividades. Voltei carregado de sonhos e esperanças, convencido de que poderia colocar em prática, naquele ambiente, a experiência e os conhecimentos que havia acumulado ao longo da vida. Imaginava reencontrar o clima acolhedor que guardava na memória, tanto nas relações com os colegas quanto no convívio com os alunos. Entretanto, a realidade que encontrei era outra. Tudo havia mudado, e eu também precisaria mudar. Meu equívoco talvez estivesse em tentar viver o presente com as expectativas de um passado que já não existia, como um navio que permanece ancorado em um porto seguro, incapaz de acompanhar o movimento das águas.


Felizmente, encontrei no apoio emocional da minha família a sustentação necessária para enfrentar os desafios que surgiram. Chorei muitas vezes, perdi nove quilos ao longo desse percurso e cheguei a experimentar os primeiros sinais de uma depressão, que se aprofundou e cujos efeitos, embora atenuados, ainda hoje me acompanham. Também realizei investimentos financeiros significativos para cumprir a missão que havia assumido. Não foi, portanto, uma simples mudança de trajetória profissional, mas uma experiência que colocou à prova minhas forças, minhas convicções e a própria maneira como eu compreendia o sentido da vida.


Diferentemente de Ulisses, o herói da célebre epopeia de Homero, não precisei enfrentar monstros mitológicos nem desfazer feitiços para seguir meu caminho. Ainda assim, houve momentos em que me senti perdido, como aquele viajante que, mesmo desejando retornar ao lar, se vê enredado em obstáculos que não havia previsto. Tive, porém, a sorte de contar com uma esposa valente, cuja lealdade me recordava Penélope, e com filhas que sempre encontraram maneiras de me apoiar e inspirar.


Havia também Mel, minha pequena pinscher, companheira fiel que nos deixou naquele mesmo ano. Seu entusiasmo ao me receber, com movimentos intensos e o rabo incansavelmente abanando, lembrava-me Argos, o cão de Ulisses, que reconheceu seu senhor mesmo depois de tantos anos de ausência. Naquela alegria simples, havia uma forma de amor que dispensava palavras e não exigia explicações. Talvez os animais, com sua maneira despretensiosa de amar, nos ensinem algo que tantas vezes esquecemos: a presença verdadeira vale mais do que qualquer demonstração grandiosa.


Ao olhar para minha trajetória, reconheço que perdi oportunidades que hoje imagino que poderiam ter conduzido minha vida por outros caminhos. Se pudesse voltar no tempo, como em um filme, escolheria permanecer na educação e não ter seguido a carreira política. Essa constatação, entretanto, não significa negar o valor das experiências que vivi, mas reconhecer que algumas escolhas deixam marcas que só conseguimos compreender plenamente com o passar dos anos.


Na escola, encontrei ferramentas capazes de transformar o mundo por meio do conhecimento. Apesar do desgaste, das dificuldades e da frequente desvalorização do trabalho docente, sempre acreditei no potencial da educação. Crianças e jovens são universos de encantamento e complexidade. Quando encontram orientação, oportunidades e condições favoráveis para desenvolver suas capacidades, podem se tornar agentes de transformação, capazes de realizar grandes feitos. Ensinar, nesse sentido, nunca foi apenas transmitir conteúdos, mas participar, ainda que modestamente, da construção de futuros possíveis.


Minha passagem pela política, por sua vez, revelou outras dimensões da realidade. À medida que me aventurava por seus caminhos e me familiarizava com seus mecanismos, percebia que o desenvolvimento material nem sempre era acompanhado pelo mesmo avanço na formação cultural, no diálogo e na compreensão humana. Minhas primeiras impressões, porém, nem sempre correspondiam à complexidade do que eu encontrava. Aprendi que as aparências podem ocultar realidades difíceis de perceber e que nossa visão de mundo se transforma à medida que adquirimos experiência, ampliamos o conhecimento e aprendemos a olhar para além do evidente.


Hoje, percebo a política como um espaço que pode aprisionar aqueles que nela se envolvem profundamente. Suas exigências, os julgamentos de diferentes grupos e as consequências das decisões tomadas podem transformar a vida pública em um labirinto, no qual nem sempre é fácil distinguir o compromisso legítimo com o bem comum das expectativas que outros depositam sobre nós. Por vezes, abandonamos aspectos importantes da própria vida para atender a demandas que ultrapassam nossas atribuições e possibilidades.


Isso não significa, contudo, considerar a política intrinsecamente destrutiva. Ela é necessária à organização da sociedade e à construção de respostas para problemas coletivos. Minha reflexão é mais pessoal: compreendi que o exercício da vida pública exige disposições e renúncias que nem sempre correspondem à natureza daqueles que nela ingressam movidos, sobretudo, por ideais e esperanças. Talvez o maior aprendizado tenha sido reconhecer que nem todo caminho, por mais nobre que pareça no início, permanece compatível com aquilo que somos e com a vida que desejamos construir.


Por isso, já não alimento arrependimentos absolutos. Resta-me uma ponderação melancólica sobre as encruzilhadas que encontrei, as decisões que tomei e as possibilidades que ficaram para trás. Afinal, não podemos retornar ao passado para experimentar as consequências de escolhas diferentes. Podemos, entretanto, revisitar nossas lembranças, compreender nossos equívocos e encontrar nelas elementos que nos ajudem a viver o presente com maior lucidez.


E, se houve perdas, também houve ganhos. Meu retorno à educação proporcionou encontros, diálogos e oportunidades de exercer o amor ao próximo sem esperar recompensas. Dizer que foi fácil seria uma forma de desonestidade comigo mesmo. Houve sofrimento, frustração e momentos em que duvidei da minha capacidade de continuar. Ainda assim, ao final dessa experiência, permaneceram lições que não podem ser medidas por resultados imediatos.


Heráclito, filósofo da Antiguidade, é associado à ideia de que tudo está em constante transformação. A imagem do rio, cujas águas nunca permanecem exatamente as mesmas, ajuda a compreender o que vivi. Eu já não era o homem que havia deixado a escola vinte anos antes. Os alunos também eram outros, assim como meus colegas e as relações que se estabeleciam naquele ambiente. A escola havia mudado porque a sociedade havia mudado. E eu precisava reconhecer que a experiência acumulada, embora valiosa, não me dispensava da disposição de aprender novamente.


Encontrei, nesse processo, os desafios de uma convivência entre gerações que percebem e utilizam o mundo de maneiras diferentes. Pais e professores precisavam compreender novas formas de comunicação, enquanto crianças e jovens cresciam em um ambiente profundamente marcado pela tecnologia. O diálogo presencial passou a conviver com as interações virtuais, e a circulação acelerada de informações tornou mais difícil distinguir o conhecimento fundamentado daquilo que apenas se apresenta como verdade. Nesse cenário, educar passou a exigir não apenas domínio de conteúdos, mas também pensamento crítico, discernimento e capacidade de dialogar com diferentes perspectivas.

É nesse contexto que volto meu pensamento àqueles que escolheram fazer da educação uma missão cotidiana: os professores.


Ser professor é aceitar o desafio de semear em um terreno que está sempre mudando. É preparar uma aula sem saber exatamente quais frutos ela produzirá, insistir no diálogo quando o silêncio parece mais fácil e continuar acreditando no potencial de um aluno mesmo quando ele próprio ainda não consegue reconhecê-lo. É também aprender a conviver com as próprias limitações, rever caminhos e compreender que educar não significa deter todas as respostas, mas ajudar outros a desenvolver a capacidade de fazer perguntas melhores.


Há algo profundamente humano nessa missão. Sob a inspiração da espiritualidade franciscana, servir não é colocar-se acima de ninguém, mas caminhar ao lado, reconhecendo a dignidade de cada pessoa. Talvez essa seja uma das grandes lições que a educação pode nos oferecer: o conhecimento ganha sentido quando deixa de ser instrumento de vaidade e se transforma em oportunidade de crescimento, partilha e libertação.


Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, penso naqueles que, mesmo diante do cansaço, das dificuldades e do reconhecimento tantas vezes insuficiente, continuam abrindo as portas do conhecimento. Penso nos que ensinam conteúdos, mas também oferecem escuta; nos que corrigem com firmeza, sem humilhar; nos que orientam sem sufocar e nos que descobrem, na singularidade de cada estudante, uma possibilidade de futuro.


Nem sempre saberemos o que aconteceu com aqueles que passaram por nossas salas de aula. Talvez nunca conheçamos a dimensão de uma palavra pronunciada no momento certo ou de um incentivo que ajudou alguém a não desistir. Ainda assim, ensinar continua sendo um gesto de esperança. Como quem planta uma árvore cuja sombra talvez não venha a desfrutar, o professor trabalha para um futuro que ultrapassa a própria existência.


A todos os educadores que seguem nessa caminhada, deixo meu reconhecimento fraterno. Que nunca lhes faltem coragem para recomeçar, sabedoria para ensinar, humildade para aprender e esperança para continuar semeando. E que, mesmo nos dias difíceis, possam reconhecer o valor daquilo que fazem, pois há transformações silenciosas que não aparecem nos registros escolares, mas permanecem para sempre na vida de alguém.


Na escola, assim como na política, sempre procurei oferecer o melhor de mim. Sei que cometi erros e que, em outras ocasiões, consegui acertar. Não reivindico uma trajetória perfeita, pois a experiência humana é feita justamente dessa alternância entre acertos, equívocos, tentativas e recomeços. O que posso afirmar é que procurei permanecer fiel às minhas convicções, mesmo quando a realidade se mostrava diferente daquilo que havia imaginado.


Hoje, mais distante desses caminhos e encontrando serenidade no recolhimento, volto o olhar para minha história com uma sensação de dever cumprido, ainda que consciente de minhas limitações. Nesse momento, recordo Paulo de Tarso, cuja imagem de perseverança e fidelidade à própria missão atravessou os séculos. Sua trajetória me inspira a reconhecer que o valor de uma vida não depende exclusivamente do reconhecimento público, mas também da coerência entre aquilo em que acreditamos e a maneira como escolhemos viver.


Não se trata de afirmar que fiz tudo corretamente, mas de reconhecer que procurei fazer o que estava ao meu alcance, aprendendo com as experiências e aprofundando minha fé. Há uma diferença significativa entre alcançar todos os objetivos que imaginamos e compreender que, apesar das frustrações, nossas experiências podem contribuir para a construção de um sentido maior.


É por isso que não me contento apenas em buscar conhecimento. Desejo também produzi-lo e compartilhá-lo com aqueles que, como eu, acreditam na importância de combater a desinformação, cultivar o pensamento crítico e ampliar a compreensão da realidade. Não pretendo escrever apenas para agradar ao público das redes sociais ou conquistar a aprovação de leitores ocasionais. Meu propósito é ir além das aparências, mergulhar nas profundezas da mente e do coração e investigar as inquietações que dão origem às nossas escolhas, aos nossos conflitos e às nossas esperanças.


Talvez seja nesse espaço de reflexão que a escrita encontre sua verdadeira finalidade: transformar a experiência vivida em aprendizado compartilhado. Aquilo que antes era sofrimento pode, com o tempo, converter-se em compreensão; aquilo que parecia fracasso pode revelar aspectos de nós mesmos que permaneceriam ocultos se tudo tivesse acontecido conforme nossos planos. Escrever, nesse sentido, também é uma forma de continuar caminhando.


Ao recordar minhas andanças, compreendo que os caminhos que percorri, inclusive aqueles que hoje escolheria de outra maneira, contribuíram para fortalecer minha espiritualidade e ampliar minha visão de mundo. Não encontrei todas as respostas, tampouco consegui realizar todos os sonhos que alimentei. Encontrei, porém, novas perguntas, outras formas de compreender a existência e a possibilidade de transformar minhas experiências em reflexão.


Nesse ponto, a imagem de Sísifo, personagem da mitologia grega condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, adquire um significado especial. Seu esforço interminável representa, para mim, a condição humana diante das tarefas que parecem nunca chegar a uma conclusão definitiva. Quantas vezes não repetimos movimentos, enfrentamos obstáculos semelhantes e recomeçamos sem a certeza de que alcançaremos o destino desejado?


Talvez a sabedoria não esteja em descobrir um propósito definitivo para cada dificuldade, mas em aprender a reconhecer o valor da caminhada, mesmo quando o resultado não corresponde às nossas expectativas. Assim como a pedra de Sísifo volta a descer a montanha, a vida nos coloca diante de desafios que exigem novas tentativas. A diferença está na consciência que desenvolvemos ao longo do percurso e na liberdade de atribuir novos sentidos àquilo que vivemos.


Francisco de Assis, ao escolher a simplicidade e a fraternidade como caminhos de vida, deixou-nos uma inspiração que ultrapassa os limites de seu tempo: é possível encontrar riqueza naquilo que não se compra e grandeza naquilo que se oferece. Talvez seja essa uma das lições que levo comigo da educação. Ensinar é oferecer algo de si sem possuir o destino daquilo que foi oferecido.


Hoje, agradeço sinceramente pela jornada que percorri. Não porque tenha sido fácil, nem porque todas as minhas escolhas tenham produzido os resultados que eu esperava, mas porque cada experiência contribuiu para formar o homem que sou. A educação me ensinou o valor da transformação pelo conhecimento; a política me colocou diante dos limites das minhas expectativas; minha família me ofereceu apoio nos momentos mais difíceis; e a espiritualidade me ajudou a encontrar serenidade diante do que não pude mudar.


Aprendi, enfim, que nem sempre podemos escolher os acontecimentos que atravessam nossa vida, mas podemos trabalhar para transformar a maneira como os compreendemos e respondemos a eles. O passado não pode ser refeito, os sonhos nem sempre se realizam como imaginamos e o futuro permanece aberto às possibilidades que ainda não conhecemos.


Talvez amadurecer seja justamente isso: deixar de exigir que a vida corresponda aos nossos planos e começar a reconhecer o valor daquilo que ela, apesar de tudo, nos permitiu aprender.

Neste 15 de outubro, ao homenagear os professores, homenageio também uma parte importante da minha própria história. Reconheço os colegas que caminharam comigo, os estudantes que me ensinaram enquanto eu acreditava estar ensinando e todos aqueles que, de diferentes maneiras, participaram dessa jornada. Se não pude realizar todos os sonhos que alimentei, levo comigo a certeza de que a experiência vivida ainda pode gerar conhecimento, reflexão e esperança.


Sigo, portanto, por novos caminhos, não mais movido pela necessidade de provar alguma coisa ao mundo, mas pelo desejo de compreender, escrever, compartilhar conhecimento e cultivar a fé. Talvez a verdadeira realização não esteja em chegar ao lugar que um dia imaginamos, mas em descobrir que até os desvios podem nos ensinar a olhar a vida com mais humildade, compaixão e gratidão.


Que cada professor, ao terminar mais um dia de trabalho, possa encontrar no silêncio do coração a lembrança de que sua missão não se resume às aulas ministradas, aos conteúdos cumpridos ou aos resultados alcançados. Há sementes que germinam lentamente, gestos que transformam sem fazer barulho e ensinamentos que permanecem quando todas as palavras parecem ter sido esquecidas.


Que São Francisco de Assis nos inspire a servir com simplicidade, a acolher com fraternidade e a reconhecer a dignidade presente em cada pessoa. E que nunca percamos a esperança de que, por meio da educação, do conhecimento e do amor ao próximo, podemos contribuir para um mundo mais humano.

Aos professores, minha gratidão. À vida, meu aprendizado. A Deus, minha esperança.


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