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A Cerejeira do Japão e a Espiritualidade Franciscana

Quando a natureza se torna oração

"Há árvores que apenas florescem. Outras ensinam a alma a florescer."

Todos os anos, quando a cerejeira do Japão floresce no Sítio Savaris, sinto que não é apenas uma árvore que desperta. Algo dentro de mim também floresce.

Durante alguns dias, o cenário muda completamente. Os galhos, antes silenciosos, tornam-se uma explosão delicada de flores cor-de-rosa. Depois, quase sem aviso, as pétalas começam a cair lentamente, formando um tapete sobre a terra.

É impossível contemplar essa cena sem recordar uma verdade simples: tudo na vida possui seu tempo.

A natureza nunca tem pressa.

E Deus também não.

Talvez seja por isso que São Francisco de Assis encontrava na criação um caminho privilegiado para conhecer o Criador. Enquanto muitos procuravam Deus apenas nos grandes acontecimentos, Francisco o reconhecia no voo de um pássaro, no perfume de uma flor, na brisa que atravessava os campos e na silenciosa sabedoria das árvores.

Hoje, ao observar a cerejeira do meu sítio, compreendo um pouco melhor esse olhar franciscano.

Ela não apenas embeleza a paisagem.

Ela evangeliza sem pronunciar uma única palavra.

A espiritualidade começa quando aprendemos a observar

Vivemos em uma época marcada pela velocidade.

Corremos de compromisso em compromisso, consumimos informações sem descanso e quase nunca permitimos que nossos olhos repousem sobre aquilo que realmente importa.

No entanto, a criação continua ali, paciente.

Esperando apenas que alguém pare para contemplá-la.

Foi exatamente isso que São Francisco nos ensinou.

Sua espiritualidade não nasceu do desejo de dominar o mundo, mas da capacidade de admirá-lo.

Cada criatura era uma irmã.

Cada paisagem era uma página aberta do grande livro da criação.

Talvez a contemplação seja uma das formas mais esquecidas de oração.

Porque contemplar não é apenas olhar.

É permitir que aquilo que vemos também transforme quem somos.

Se esta reflexão faz sentido para você, recomendo também a leitura do artigo Espiritualidade Franciscana no Cotidiano: Como Encontrar Paz Interior Vivendo o Simples. Nele aprofundo como a simplicidade pode transformar nossa maneira de viver e encontrar Deus nas pequenas coisas.

A cerejeira e o mistério dos ciclos

Ao longo dos anos, acompanhei minha cerejeira atravessando as estações.

E percebi que ela nunca luta contra o tempo.

Cada fase possui sua própria beleza.

No outono, deixa partir suas folhas.

Sem resistência.

Sem medo.

Ela parece compreender que nenhuma árvore floresce enquanto insiste em conservar aquilo que já terminou.

Depois vem o período (maio e junho) em que os galhos ficam aparentemente vazios.

Quem passa rapidamente pode imaginar que a árvore morreu.

Mas a vida continua acontecendo em silêncio.

Nas raízes.

No invisível.

Então chega o mês de julho.

E, quase como um milagre, tudo explode em cores.

Não porque a árvore tenha apressado o processo.

Mas porque respeitou cada etapa da caminhada.

Será que nossa vida também não é assim?

Quantas vezes queremos flores sem aceitar o inverno?

Quantas vezes desejamos respostas sem atravessar o silêncio?

A cerejeira ensina que Deus trabalha primeiro onde nossos olhos não conseguem enxergar.

São Francisco e a pedagogia da natureza

Francisco de Assis jamais separou espiritualidade da criação.

Para ele, Deus se revelava através das pequenas coisas.

No Cântico das Criaturas, encontramos uma das mais belas profissões de fé já escritas:

"Louvado sejas, meu Senhor, por irmã nossa mãe terra, que nos sustenta e governa, produz diversos frutos, flores coloridas e ervas."

Essas palavras continuam profundamente atuais.

Elas nos recordam que a natureza não é apenas um recurso.

É um dom.

Cada flor nos fala da beleza.

Cada árvore nos fala da esperança.

Cada amanhecer nos fala da fidelidade de Deus.

A cerejeira do Japão tornou-se, para mim, uma pequena catequista silenciosa.

Sem discursos.

Sem teorias.

Sem pressa.

Ela apenas floresce.

E isso basta.

O silêncio que floresce

Coloco um banco sob a sombra da cerejeira.

Algumas tardes gosto simplesmente de permanecer ali.

Sem celular.

Sem relógio.

Sem necessidade de produzir qualquer coisa.

No começo, a mente continua agitada.

Depois, aos poucos, o silêncio vai ocupando espaço.

Os pensamentos desaceleram.

As preocupações diminuem de tamanho.

E algo extraordinário acontece.

Percebemos que Deus nunca deixou de falar.

Nós apenas estávamos ocupados demais para escutá-Lo.

A meditação franciscana talvez seja exatamente isso.

Não fugir do mundo.

Mas aprender a habitá-lo com mais presença.

A humildade das flores

As flores da cerejeira nunca permanecem por muito tempo.

Talvez seja justamente isso que as torna tão belas.

Elas não tentam durar para sempre.

Não disputam espaço.

Não competem.

Não exigem reconhecimento.

Simplesmente cumprem sua missão.

Depois deixam o vento conduzi-las.

Essa talvez seja uma das maiores lições da espiritualidade franciscana.

A verdadeira grandeza nunca faz barulho.

São Francisco não quis ser importante.

Quis apenas ser fiel.

A cerejeira também.

A árvore que me ensina a rezar

Com o passar dos anos, percebi que essa árvore deixou de ser apenas parte da paisagem do Sítio Savaris.

Ela tornou-se uma companheira de oração.

Sempre que floresce, recorda-me que a esperança nunca desaparece.

Quando perde suas folhas, lembra-me que desapegar também faz parte da vida.

Quando permanece verde, ensina-me a perseverança.

Quando parece adormecida, convida-me a confiar no tempo de Deus.

Talvez seja esse o maior milagre da contemplação.

A árvore continua exatamente a mesma.

Quem muda somos nós.

O caminho franciscano começa onde nossos olhos desaceleram

Talvez não seja necessário viajar para lugares distantes em busca de paz.

Talvez ela esteja escondida na árvore que cresce diante da nossa casa.

Na flor que abre silenciosamente todas as manhãs.

No vento que atravessa o jardim.

Na simplicidade das pequenas coisas.

São Francisco descobriu isso há mais de oitocentos anos.

A cerejeira do Japão continua repetindo a mesma lição.

Quem aprende a contemplar a criação começa, pouco a pouco, a contemplar também o Criador.

E, nesse encontro silencioso, nasce uma paz que nenhuma pressa do mundo consegue retirar.

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Se esta reflexão encontrou espaço em seu coração, convido você a permanecer nesta caminhada.

No Blog Caminhando com Francisco, compartilho reflexões sobre espiritualidade franciscana, simplicidade, contemplação da natureza, autoconhecimento e a busca de uma fé vivida no cotidiano.

🌿 Leia também: Espiritualidade Franciscana no Cotidiano: Como Encontrar Paz Interior Vivendo o Simples https://www.caminhandocomfrancisco.com/post/espiritualidade-franciscana-no-cotidiano-como-encontrar-paz-interior-vivendo-o-simples

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Porque algumas árvores oferecem sombra.

Outras oferecem frutos.

Mas existem aquelas que, silenciosamente, nos ensinam a florescer por dentro.

Que a cerejeira do Japão continue recordando a todos nós que Deus costuma revelar as maiores verdades na beleza discreta da criação.


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