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Irmã Nádia: um silêncio que parece desumanizar

Por Irmão Franciscano Éder Vasconcelos*


Há silêncios que são oração.Há silêncios que são maturidade.Há silêncios que são sabedoria.

Mas há silêncios que nos desumanizam.

A morte brutal da irmã Nadia Gavanski, no convento das Irmãs Servas de Maria Imaculada, em Ivaí, no Paraná, não pode ser apenas mais uma notícia que atravessa a tela do celular e desaparece no fluxo apressado das superficialidades digitais. Não pode ser tratada como estatística. Não pode ser reduzida a rodapé de portais.

Quando uma mulher de 82 anos, com 55 anos de dedicação à vida religiosa, é assassinada com violência dentro do espaço que simboliza oração, serviço e paz, não estamos diante de um fato isolado. Estamos diante de um sintoma social.

E a pergunta ecoa com força: Por onde caminhamos?

Vivemos um tempo em que a morte de um animal — como o caso do cachorro Orelha, em Florianópolis — gera comoção intensa, debates acalorados e mobilização digital. E é justo que a vida seja defendida, em todas as suas formas. São Francisco de Assis nos ensinou a chamar o lobo de irmão.

Mas quando uma religiosa é violentada e morta, o silêncio social parece mais confortável. Menos engajamento. Menos indignação. Menos clamor.

Não se trata de comparar dores.Trata-se de questionar prioridades morais.

O que estamos normalizando?

A Palavra de Deus é clara:

“Não matarás.” (Êxodo 20,13)

E também nos recorda:

“A justiça e o direito são a base do teu trono.” (Salmo 89,15)

O Papa Francisco alerta para a “globalização da indiferença”, essa anestesia espiritual que nos impede de sentir a dor do outro (Evangelii Gaudium, 54). Quando a barbárie se torna paisagem e a violência vira conteúdo consumível, algo em nossa consciência coletiva adoece.

Irmã Nádia não era apenas uma vítima. Era uma história. Uma vocação. Uma entrega silenciosa ao serviço. Uma mulher que, mesmo após um AVC, continuava alimentando as galinhas do convento. Um símbolo de perseverança e fidelidade.

Jesus foi direto:

“O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25,40)

O silêncio contemplativo é virtude.Mas o silêncio diante da injustiça é omissão.

Dietrich Bonhoeffer afirmava que “o silêncio diante do mal é o próprio mal”. Santo Agostinho lembrava que “a esperança tem duas filhas: a indignação e a coragem”. Indignação para não aceitar o errado. Coragem para transformá-lo.

A dignidade humana não pode ser seletiva.Não pode depender de trending topics. Não pode ser guiada por algoritmos.

Precisamos nos converter.

Converter o olhar.Converter a linguagem.Converter a consciência.

Porque quando normalizamos a barbárie, perdemos um pouco da imagem e semelhança de Deus que carregamos.

Da reflexão à ação

Diante desse cenário, a fé que não se faz ação é estéril. Por isso, indicamos caminhos concretos:

1. Rezar e celebrar a memória

Organizar ou participar de uma missa em sufrágio por sua alma e pelas vítimas da violência é um gesto concreto de fé. A oração não é fuga: é fundamento. Onde dois ou mais se reúnem em nome do Senhor, ali Ele está (cf. Mateus 18,20).

2. Apoiar a congregação

Buscar informações oficiais sobre as Irmãs Servas de Maria Imaculada e oferecer apoio — seja por meio de mensagens, doações, presença fraterna ou colaboração em suas obras sociais — é uma forma concreta de solidariedade cristã.

3. Mobilização consciente

Se houver campanhas, abaixo-assinados ou iniciativas que defendam políticas públicas de proteção a idosos, religiosos e espaços comunitários, participe com responsabilidade. A cidadania é também expressão da fé quando orientada pelo bem comum.

4. Cobrar políticas públicas eficazes

A violência não nasce do nada. Ela é fruto de omissões estruturais, crises familiares, fragilidade na prevenção, falhas no acompanhamento de dependentes químicos e reincidências ignoradas. Cobrar dos poderes públicos medidas concretas de prevenção, acompanhamento psicológico e segurança é dever social.

5. Romper a cultura da indiferença

Compartilhe reflexões que promovam a cultura da vida. Dialogue sem ódio. Evite ideologizar a dor. Humanize o debate. Não permita que a morte seja apenas conteúdo consumido e descartado.

6. Investir na formação das novas gerações

A cultura da vida começa na família e na escola. Educação moral, espiritual e afetiva não é luxo — é necessidade civilizatória. Como ensinava São João Paulo II, não haverá nova sociedade sem homens novos.

Irmã Nádia nos interpela.

Não com palavras — pois sua voz foi silenciada.Mas com o testemunho de uma vida inteira doada.

Que sua memória nos mova.Que sua história nos desperte.Que sua morte não seja absorvida pelo ruído das banalidades.

Nem todo silêncio é santo.Há momentos em que falar é caridade.Há momentos em que denunciar é fidelidade ao Evangelho.Há momentos em que agir é dever moral.

Que Deus nos conceda discernimento.E que a Virgem Maria, a quem irmã Nádia era tão devota, nos ensine a guardar no coração aquilo que nos humaniza — mas também a proclamar com coragem aquilo que precisa ser transformado.

Porque se perdermos a capacidade de nos indignar diante da injustiça,perderemos também a capacidade de amar.

E sem amor, não há Evangelho.


(*) Éder Vasconcelos é irmão franciscano, licenciado e bacharel em Filosofia, bacharel em Teologia e pós-graduado em Ciências da Religião. Terapeuta holístico e massoterapeuta, atua na formação pastoral e espiritual de leigos e leigas em comunidades da Arquidiocese de Manaus. É autor dos livros Orações, bênçãos e celebrações para a família (2013), Preces para pedir o dom da fé (2014), Vida espiritual como caminho de realização (2015) e Imagens para a alma (2016), publicados pela Vozes.

 

 


 
 
 

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