🐺 O Lobo de Gúbio Não Era o Problema
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- 23 de jan.
- 3 min de leitura

A história do lobo de Gúbio é uma das mais conhecidas da tradição franciscana. Costuma ser contada como o encontro de um santo corajoso com um animal feroz. Mas, lida com mais atenção, ela revela algo muito mais desconcertante: o lobo não era o verdadeiro problema.
O medo era.
O ódio acumulado era.
A incapacidade de escutar era.
O lobo atacava porque estava faminto, ferido, ameaçado. A cidade reagia como sabia: com violência, armadilhas, desejo de extermínio. Era o ciclo perfeito do conflito — medo gerando agressão, agressão gerando mais medo. Um ciclo que, séculos depois, continua assustadoramente atual.
Francisco não entrou em Gúbio armado.Entrou desarmado de certezas, de poder, de superioridade.
Enquanto todos gritavam contra o lobo, Francisco se aproximou em silêncio. Não para domar, mas para compreender. Não para vencer, mas para reconciliar. Ele não perguntou primeiro “como eliminá-lo?”, mas “o que o fez chegar até aqui?”.
Essa pergunta muda tudo.
Vivemos em um tempo repleto de lobos simbólicos. Pessoas agressivas, discursos de ódio, polarizações violentas, relações rompidas. Nossa reação costuma ser a mesma de Gúbio: rotular, afastar, cancelar, destruir. Chamamos de defesa o que, muitas vezes, é apenas medo não elaborado.
Francisco percebeu algo essencial:quando ninguém escuta, o lobo ruge.
O lobo de Gúbio não precisava de morte. Precisava de alimento, de espaço, de pacto. Quando foi ouvido, deixou de atacar. Quando foi reconhecido, deixou de ser ameaça. A cidade também precisou mudar — assumir sua parte, cuidar, compartilhar. A paz não veio da vitória de um lado, mas da conversão de todos.
Essa é a parte da história que raramente gostamos de contar.
Preferimos acreditar que o problema está sempre fora. No outro. No adversário. No “lado oposto”. Mas Francisco nos confronta com uma verdade mais difícil: muitas vezes, o lobo é fruto da nossa própria incapacidade de convivência.
A natureza sabe disso.Os animais sabem disso.
Quando um ecossistema entra em desequilíbrio, não há culpados isolados. Há relações rompidas. Quando um animal se torna agressivo, quase sempre é porque seu espaço foi invadido, sua fonte de vida destruída, seu ritmo violentado.
E nós?Quantas vezes nos tornamos lobos quando somos encurralados?Quantas vezes atacamos quando não somos ouvidos?Quantas vezes ferimos porque fomos feridos?
Francisco não romantizou o lobo. Ele o encarou. Mas o fez sem ódio. Reconheceu sua ferocidade sem negar sua dignidade. Isso exige uma coragem que vai além da força física: a coragem da mansidão.
Num mundo em que gritar rende aplausos e odiar rende seguidores, a mansidão parece fraqueza. Mas é ela que rompe ciclos. É ela que cria pontes onde só havia muros. É ela que transforma conflitos em processos de cura.
Hoje, talvez o maior desafio espiritual não seja eliminar os lobos, mas aprender a escutá-los — fora e dentro de nós. Porque todo lobo ignorado tende a se tornar mais violento. E todo lobo escutado pode, surpreendentemente, se transformar.
Francisco nos ensina que a paz não nasce da imposição, mas da reconciliação. E que reconciliar não é concordar com tudo, mas reconhecer a humanidade (e a criatura) por trás do conflito.
O lobo de Gúbio não era o problema.O problema era um mundo que havia desaprendido a conviver.
E talvez seja exatamente esse mundo que ainda espera, hoje, por alguém que tenha coragem de se aproximar sem pedras nas mãos.
E você? Que lobos tem combatido… quando talvez fosse hora de escutar? 🐺🌿




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