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O Cântico das Criaturas é um Ato Político do Amor

Francisco de Assis não escreveu o Cântico das Criaturas em um tempo de paz.Ele o compôs quando o corpo já estava doente, quando a visão se apagava, quando as dores eram constantes e quando o mundo ao redor seguia marcado por guerras, disputas e desigualdades.

Nada ali era ingênuo.Nada era alienação.

Cantar, naquele contexto, era um ato profundamente subversivo.

Enquanto o mundo reclamava, Francisco agradecia.Enquanto muitos amaldiçoavam a realidade, ele a abençoava.Enquanto a lógica dominante era a do confronto, ele escolheu o louvor.

“Louvado sejas, meu Senhor…”

Louvar, naquele momento, não era fechar os olhos para o sofrimento. Era se recusar a permitir que o sofrimento tivesse a última palavra. O cântico de Francisco não nega a dor, mas a atravessa. Não foge do mundo, mas o ressignifica.

Por isso, o louvor se torna político.

Não político no sentido partidário, mas no sentido mais profundo: ele questiona a forma como organizamos a vida. Em um sistema baseado na queixa permanente, na escassez artificial e no medo cultivado, agradecer é um gesto de resistência. É afirmar que a vida é mais do que aquilo que o ódio tenta reduzir.

A criação inteira participa desse cântico.

O sol não compete com a lua.A água não disputa com o fogo.A terra não se vinga de quem a fere — ainda que sofra.

Cada criatura louva simplesmente sendo o que é. O louvor da criação não passa pela linguagem, mas pela fidelidade à própria missão. O rio louva correndo. A árvore louva frutificando. O pássaro louva cantando — não para ser ouvido, mas porque é da sua natureza cantar.

O ser humano, no entanto, desaprendeu a louvar.Aprendeu a exigir.Aprendeu a acusar.Aprendeu a reclamar como forma de pertencimento.

Nas redes, a indignação gera engajamento. A revolta cria alianças. O ódio organiza tribos. Falar mal virou sinal de lucidez. Reclamar virou prova de consciência. A gratidão, ao contrário, passou a ser vista como ingenuidade ou alienação.

Francisco nos confronta com outra lógica.

Louvar não é concordar com tudo.É escolher não se deixar capturar pela lógica da destruição.

Jesus também viveu essa espiritualidade. Mesmo diante da cruz, ele não amaldiçoa. Mesmo traído, não devolve ódio. Mesmo injustiçado, não perde a confiança no Pai. Sua vida inteira foi um cântico vivido — um louvor encarnado em gestos de cuidado, cura e compaixão.

O cântico não ignora a noite.Mas anuncia que a noite não é eterna.

Talvez por isso o louvor seja tão necessário hoje. Não como fuga, mas como reposicionamento interior. Louvar é lembrar que nem tudo está perdido. Que ainda há beleza. Que ainda há bondade. Que ainda há vida pulsando — mesmo sob os escombros.

A ecologia integral começa aqui: quando reaprendemos a agradecer pela água, pela terra, pelo alimento, pelo tempo, pelas relações. Quando paramos de tratar a criação como inimiga ou recurso e voltamos a reconhecê-la como dom.

O louvor muda o modo como habitamos o mundo.

Quem louva cuida mais.Quem louva consome menos.Quem louva aprende a partilhar.

Em tempos de cinismo e polarização, talvez o cântico seja o gesto mais revolucionário que nos resta. Não o cântico vazio, mas aquele que brota da consciência, da humildade e do compromisso com a vida.

Francisco cantou quando muitos gritavam.E, ao cantar, mostrou que o amor ainda podia reorganizar o mundo.

O Cântico das Criaturas não é um poema antigo.É um manifesto silencioso.Um ato político do amor.

E você? Em meio a tantas reclamações, o que ainda consegue louvar? 🎶🌿

 

 
 
 

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