A Terra Não Disputa Espaço: Ela Sustenta a Vida
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Vivemos um tempo em que gritar parece necessário. Quem não levanta a voz, quem não se impõe, quem não aparece, corre o risco de ser esquecido. O mundo aprendeu a competir até pelo direito de existir. Disputamos espaço nas redes, opiniões nas mesas, verdades nas praças. O barulho se tornou sinal de presença, e o silêncio, quase sempre, é confundido com fraqueza.
A Terra, no entanto, não aprendeu essa lógica.
Ela não disputa espaço.Ela sustenta a vida.
Enquanto o ser humano grita para ser notado, a Terra trabalha em silêncio. Dia após dia, sem aplausos, sem curtidas, sem discursos. O solo segue fértil, os ciclos se cumprem, as águas correm, as árvores crescem, os animais encontram seu lugar. Não há competição na criação — há cooperação. Não há palco — há serviço.
Francisco de Assis compreendeu isso cedo. Por isso não falava sobre a natureza como quem domina um tema; ele falava com a natureza como quem reconhece parentes. Chamava o sol de irmão, a lua de irmã, a terra de mãe. Não era poesia ingênua. Era teologia profunda. Francisco intuiu que a criação não existe para ser explorada, mas para ser respeitada. Não para ser usada, mas para ser cuidada.
Hoje, quando olhamos para o planeta exausto, percebemos o quanto nos afastamos dessa sabedoria simples. Exploramos como se a Terra tivesse que provar seu valor. Exigimos produtividade como se ela fosse uma empresa. Cobramos resultados como se a vida fosse uma mercadoria. E, quando algo entra em colapso, chamamos de “crise ambiental”, como se fosse um problema externo — quando, na verdade, é um reflexo da nossa crise interior.
A Terra não disputa espaço conosco.Somos nós que a invadimos.
Na Laudato Si’, o Papa Francisco nos lembra que tudo está interligado. A ecologia não é apenas ambiental; é humana, social e espiritual. Quando rompemos a relação de cuidado com a criação, rompemos também a relação conosco e com os outros. O mesmo impulso que nos faz gritar para vencer um debate é o que nos faz dominar para vencer a natureza. É a lógica da imposição substituindo a lógica do cuidado.
Mas a Terra continua nos ensinando — mesmo quando não queremos aprender.
Observe os animais. Eles não disputam espaço por vaidade. Não acumulam além do necessário. Não destroem o ambiente que os sustenta. Existe ali uma sabedoria silenciosa, uma obediência aos ritmos da vida que nós desaprendemos. Enquanto falamos demais, eles vivem. Enquanto explicamos demais, eles confiam.
Henry David Thoreau, ao se retirar para Walden, não fugia do mundo; ele buscava reencontrar o essencial. No silêncio da natureza, descobriu que a vida pode ser mais simples, mais verdadeira, mais íntegra. Não se trata de romantizar o campo ou negar a cidade, mas de recuperar uma atitude interior: viver sem disputar espaço, sem ferir para existir.
Jesus já havia ensinado isso muito antes, apontando para os lírios do campo e para as aves do céu. Eles não competem, não acumulam, não se exibem — e, ainda assim, vivem. Há uma confiança radical inscrita na criação. Uma confiança que não nasce da ingenuidade, mas da pertença. Eles pertencem ao mundo. Sabem disso. Nós esquecemos.
Talvez por isso gritemos tanto.
Quando não sabemos quem somos, disputamos.Quando não sabemos de onde viemos, dominamos.Quando não sabemos a quem pertencemos, ferimos.
A Terra, ao contrário, sabe. Ela pertence à vida. E, por isso, sustenta.
Francisco escolheu aprender com ela. Caminhava devagar para não ferir. Tocava com cuidado. Aproximava-se com reverência. Em um mundo que já começava a organizar poder, riqueza e controle, ele escolheu a fraternidade. Em vez de disputar espaço, fez-se pequeno. E, paradoxalmente, tornou-se imenso.
Hoje, em tempos de polarização, ódio e barulho, talvez o gesto mais revolucionário seja reaprender com a Terra. Silenciar um pouco. Cuidar mais. Competir menos. Sustentar a vida ao invés de exigir reconhecimento.
A Terra não precisa que a defendamos aos gritos.Ela precisa que mudemos o modo como pisamos.
Que este texto não seja apenas uma leitura, mas um convite. Um convite a caminhar com mais leveza, a falar menos e escutar mais, a existir sem disputar.
Porque, no fim, a Terra nos lembra todos os dias:quem sustenta a vida não precisa gritar para existir.
E você? Em quais espaços da sua vida tem gritado para existir, quando poderia apenas sustentar e cuidar? 🌱




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