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Quando o Tempo Reuniu uma Geração

A geração que transformou uma equipe de futsal em patrimônio da memória da antiga Vila do Povo Feliz

Quando antigos atletas voltaram a vestir a camisa da Equipe Juvenil Antártica, durante a homenagem promovida pela Administração Municipal de Flor da Serra do Sul, em 25 de julho de 2026, muitos enxergaram apenas um reencontro.

Mas aquela fotografia dizia muito mais.

Ali não estavam reunidos apenas ex-jogadores.

Ali estavam reunidas famílias, amizades, sonhos, lembranças e uma parte importante da história da antiga Flor da Serra (Vila do Povo Feliz), comunidade que antecedeu a emancipação política de Flor da Serra do Sul e ajudou a construir a identidade do município.

Quarenta e dois anos haviam passado desde a campanha de 1984.

O tempo embranqueceu os cabelos, mudou as profissões, ampliou as famílias e levou alguns companheiros para a eternidade. No entanto, bastou um abraço para que todos voltassem a ser aqueles adolescentes que sonhavam alto, mesmo vivendo uma realidade simples, marcada pelo trabalho, pela união e pela esperança.

Foi olhando para essa fotografia que nasceu esta crônica.

Não para contar apenas a história de um vice-campeonato.

Mas para preservar a memória de uma geração que fez do esporte uma verdadeira escola de amizade, disciplina e pertencimento.


Quando a Vila aprendia a caminhar

No início da década de 1980, a antiga Vila do Povo Feliz vivia um período de crescimento e transformação.

As ruas eram, em sua maioria, de chão batido.

Nos dias secos, a poeira acompanhava quem caminhava.

Nas épocas de chuva, era o barro que testava a paciência de moradores e visitantes.

A vida seguia outro ritmo.

Antes das aulas, muitos meninos ajudavam os pais na lavoura, tratavam os animais ou realizavam pequenas tarefas na propriedade. O trabalho fazia parte da formação das crianças e dos adolescentes, mas nunca impedia que sobrasse tempo para brincar, estudar e sonhar.

As famílias viviam com simplicidade.

Os recursos eram limitados.

Os sapatos precisavam durar vários anos.

O mesmo tênis servia para ir à escola, participar do culto de domingo e disputar os campeonatos esportivos.

Quando rasgava, era consertado.

Quando a sola soltava, apareciam a cola, a linha e a criatividade.

Não havia luxo.

Mas havia dignidade.

E, sobretudo, havia comunidade.

Todos se conheciam.

As portas permaneciam abertas.

As dificuldades eram divididas.

As conquistas também.

Foi nesse ambiente que cresceu a geração da Equipe Juvenil Antártica.


A quadra onde nasceram amizades

No fim de cada tarde, bastava ouvir o som da bola batendo contra a parede para que os primeiros jovens começassem a chegar.

Uns vinham de bicicleta.

Outros caminhavam pelas ruas da vila.

Alguns ainda carregavam nas mãos os sinais do trabalho daquele dia.

A antiga quadra esportiva — localizada onde atualmente funciona o Restaurante Picanha Grill — estava longe dos padrões dos ginásios modernos.

Mas, para aqueles adolescentes, era o melhor lugar do mundo.

Ali aprenderam fundamentos do futebol de salão.

Mas aprenderam muito mais do que isso.

Aprenderam a confiar uns nos outros.

A dividir responsabilidades.

A respeitar o adversário.

A compreender que ninguém vence sozinho.

Cada treino fortalecia uma amizade.

Cada partida ensinava uma lição.

Sem perceber, aqueles jovens estavam sendo preparados não apenas para um campeonato, mas para a própria vida.


Muito mais do que um uniforme

Receber a camisa da Equipe Juvenil Antártica foi um dos momentos mais marcantes daquela caminhada.

O uniforme foi viabilizado graças à doação realizada por Milton Marschin, representante das Bebidas Damiani, atendendo ao pedido feito por Valter Perondi, proprietário do tradicional Bar do Valter.

Pode parecer um gesto simples.

Mas, para aqueles adolescentes, significava muito.

Era o reconhecimento de que a comunidade acreditava neles.

Cada camisa era tratada com cuidado.

Cada treino aumentava a responsabilidade.

Agora eles não representavam apenas a si mesmos.

Representavam suas famílias.

Representavam a Vila do Povo Feliz.

Representavam todos aqueles que torciam por eles.


Uma campanha construída com esforço

O Campeonato Municipal de Futebol de Salão de 1984 no Município de Palma Sola - SC aproximou ainda mais aqueles jovens.

As viagens pelas estradas de chão tornavam-se momentos de convivência.

Os treinos eram intensos.

As arquibancadas enchiam-se de familiares, vizinhos e amigos.

Cada defesa era comemorada.

Cada gol fazia a torcida levantar.

Naquela época, o esporte possuía um significado especial.

Era lazer.

Era educação.

Era convivência.

Era esperança.

Jogo após jogo, a Equipe Juvenil Antártica mostrou organização, disciplina e espírito coletivo.

Chegou à grande decisão para enfrentar a equipe Mercado Vogel/Borracharia do Levi.

Foi uma final equilibrada.

Disputada com respeito.

Com coragem.

Com dedicação.

Ao final, o placar apontou vitória do adversário por 2 a 1.

Naturalmente veio a tristeza.

Todo atleta sonha em levantar a taça.

Mas havia algo que nem mesmo a derrota conseguia apagar.

O orgulho.

O orgulho de representar sua comunidade.

O orgulho de olhar para o lado e saber que cada companheiro havia dado o melhor de si.

Naquele dia, poucos imaginavam que o verdadeiro prêmio daquela campanha ainda levaria décadas para revelar seu valor.


Quarenta e dois anos depois

Em 2026, por iniciativa de Jovani Luiz Cenatti (Vanico), integrante daquela equipe e atualmente membro da Administração Municipal de Flor da Serra do Sul, surgiu a proposta de reunir novamente os antigos companheiros.

A homenagem ultrapassou o esporte.

Representou um gesto de gratidão.

Ao vestirem novamente a camisa da Equipe Juvenil Antártica, aqueles homens perceberam que algumas vitórias amadurecem com o tempo.

As conversas recomeçaram exatamente de onde haviam parado.

Os apelidos voltaram naturalmente.

As lembranças surgiram uma após outra.

Cada fotografia despertava uma história.

Cada abraço confirmava que a amizade permanecia intacta.

Naquele reencontro, compreendeu-se uma verdade que talvez só o tempo seja capaz de ensinar.

Os campeonatos terminam.

Os troféus envelhecem.

Mas aquilo que é construído sobre amizade, respeito e espírito comunitário permanece vivo.


Uma homenagem a todos os que construíram essa caminhada

Esta história não pertence apenas aos atletas.

Ela também pertence às famílias que incentivaram seus filhos.

Ao técnico que acreditou no potencial daqueles jovens.

Ao auxiliar que caminhou ao lado da equipe.

Aos comerciantes que estenderam a mão quando o esporte precisava de apoio.

Aos torcedores que lotaram as arquibancadas.

À comunidade que compreendeu que investir na juventude sempre vale a pena.

Nenhuma conquista é individual.

Toda caminhada é construída por muitas mãos.

Talvez esse seja o maior ensinamento deixado pela Equipe Juvenil Antártica.

Muito antes de aprenderem a competir, aqueles jovens aprenderam a cooperar.

E essa lição permaneceu muito depois do apito final.


Memorial Permanente

Como toda história digna de ser preservada precisa guardar os nomes de seus protagonistas, ficam registrados, para as atuais e futuras gerações, aqueles que ajudaram a escrever esta bela página da memória esportiva da antiga Vila do Povo Feliz.

Equipe Juvenil Antártica

Vice-campeã Municipal de Futebol de Salão — 1984

Atletas

  • Altair Alves Maciel (Nego)

  • Anderson Luiz Perondi (Xoxo)

  • Arlei Araújo

  • Arnaldo Confortim (Nini)

  • Carlos Alberto Savaris

  • Evandro César Perondi

  • Gelson Ghizzi (Coelho)

  • Jovani Luiz Cenatti (Vanico)

  • Leandro Carlos Wessler (Maninho – in memoriam)

  • Luiz Adalmo Wessler

  • Ronaldo Cavazotto (Chiquinho)

Comissão Técnica

Técnico

  • Jairo Barbieri

Auxiliar Técnico

  • Darci Alves Maciel

 

Apoiadores

  • Milton Marschin, representante das Bebidas Damiani, responsável pela doação dos uniformes.

  • Valter Perondi, proprietário do Bar do Valter, cuja iniciativa tornou possível a conquista das camisas que marcaram a identidade daquela equipe.


A memória também constrói o futuro

Há quem pense que recordar o passado seja um exercício de saudade.

Não é.

Registrar histórias como esta é um compromisso com as futuras gerações.

Os municípios não são construídos apenas por decretos, obras ou datas oficiais.

São construídos por pessoas.

Por agricultores que abriram caminhos.

Por professores que ensinaram.

Por comerciantes que acreditaram.

Por famílias que educaram.

Por voluntários que serviram.

E também por jovens que descobriram, dentro de uma quadra esportiva, que amizade, disciplina e respeito são conquistas muito maiores do que qualquer troféu.

Talvez, daqui a muitos anos, um neto procure na internet o nome de seu avô e encontre esta crônica.

Talvez descubra que aquele homem simples, que tantas vezes ouviu contar histórias ao redor da mesa, também ajudou a escrever um pequeno capítulo da história de Flor da Serra do Sul.

Se isso acontecer, este texto terá cumprido plenamente sua missão.

Porque os campeonatos pertencem ao seu tempo.

Mas a memória pertence à eternidade.


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